Negócios: O desafio de manter o amigo e a sociedade

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Sócios que se declaram amigos pessoais precisam estar atentos para preservar dois importantes patrimônios que têm em comum. O primeiro a empresa que ambos construíram ao longo de anos e o segundo, mas não menos importante, a própria amizade também edificada ao longo muito tempo.

Para o consultor em administração e especialista em governança corporativa, Marcelo Camorim, as relações sócios e amigos podem sim caminhar juntas e contribuir com que o negócio ande de vento e popa, a medida que exista compartilhamento de tarefas, de responsabilidades e de riscos. Mas, também, pode ser complicação principal para que uma corporação feche as portas. “Um passo mal dado pode acabar tanto com a empresa quanto com a amizade”, destaca o consultor.

O especialista diz que problemas na relação sociedade-amizade costumam aparecer na hora de decidir onde investir ou como repartir os lucros. “Nessa hora, não só a sociedade, mas amizade precisa ser madura. Nessa hora, se houver um real entendimento e comprometimento sobre o que precisa e deve ser feito, não só a empresa dura, mas também a amizade”, frisa.

Mas ao longo de 31 anos de carreira e dez de experiência como consultor em gestão, prestando serviço para empresas dos mais variados ramos, Camorim admite que na maioria das vezes a amizade entre sócios existe somente quando a empresa está bem. “São poucas as amizades e sociedades que se mantém de pé ante a turbulência de uma crise. Por isso a importância de que essa relação de sociedade seja, madura, profissional e clara para todos”, pontua o especialista.

Para o consultor, a amizade não deve nunca se sobrepor às normas e metas da empresa e sugere inclusive, que mesmo entre amigos, esta relação de sociedade deve ser formalizada. “Obrigações, responsabilidades, metas, divisão de lucros e riscos, alinhamento dos objetivos gerais da empresa . Tudo isso precisa estar formalizado, desde o início. Formalizar isso é proteger a empresa e, portanto, é também proteger a amizade”, sugere Camorim.

Ex-concorrentes

Fazendo parte de uma sociedade de 36 anos e mantendo uma amizade com seu sócio que já dura quatro décadas, o engenheiro civil e diretor da Dinâmica Engenharia, Mário Valois, considera que para manter uma sociedade com um amigo é preciso pensar numa relação duradoura, é necessário que os sócios entendem cada um seu papel e sua contribuição para o crescimento da empresa. Ao longo de quase 40 anos de sociedade com o também engenheiro Eugênio Carvalho, Valois reconhece que divergências pontuais sempre ocorrem, mas compartilhar um propósito principal é fundamental. “Se nós dois como sócios não estivermos caminhando com a empresa para um mesmo rumo, a sociedade perde sentido”, avalia.

Mário conta que conheceu Eugênio em Goiânia, no início da década de 1980, quando trabalhavam em empresas concorrentes.  Para ele, a amizade e a admiração mútua foram e ainda são essenciais para a superação de cada obstáculo que surge. Enquanto um atua na parte comercial, o outro se dedica a área técnica, para Valois, essa separação e ao mesmo reconhecimento do trabalho de cada um é o grande segredo do sucessos da sociedade. “Somos parecidos no compromisso, dedicação, entrega e na perseverança com o trabalho. E se Deus quiser, vamos passar mais 50 anos juntos”, aponta Mário Valois, ao acrescentar que ética, honestidade e o pensar no outro são fundamentais para um bom convívio e sucesso familiar e empresarial.

Conforme o consultor Marcelo Camorim, a conciliação de amizade e sociedade é desafiadora, e tudo tem um limite.  “Bons amigos no trabalho podem ter atritos e diferenças, e a falta de profissionalismo e regras podem prejudicar os sócios, a organização e as famílias”, adverte Camorim.