Arquitetura Hospitalar – o “remédio invisível” que prospera os negócios da Saúde

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Por Luana Lousa

Atemporal e mágico, é poder relacionar Vitrúvio com Hipócrates! Encontrar tanta afinidade de pensamento em áreas, teoricamente tão distintas, nos faz avaliar o quão próximos se fazem os projetos de arquitetura hospitalar, a medicina e os pacientes.  Hipócrates, o “pai” da medicina percebia o homem como fruto do meio, literalmente. Ele alegava que o ar, a água, o solo, o lugar, contribuíam enormemente para a saúde e as doenças desenvolvidas. Da mesma forma, uns 2 séculos depois, Vitrúvio, arquiteto da Roma antiga, que escreveu o maior Tratado de Arquitetura, dizia exatamente a mesma coisa, de forma ainda mais enfática! Argumentava de forma contundente de que a arquitetura era capaz de promover saúde e bem estar na mesma proporção que era capaz de adoecer as pessoas.  Ambos enxergavam a arquitetura como um elemento vivo e atuante na vida das pessoas.

Interpolando esses pensamentos, é possível dizer que a interseção dos espaços naturais e projetados são capazes de proporcionar mais do que boa ou má qualidade de vida, são capazes de criar um universo intangível, que se manifesta no físico, como uma dor de cabeça ou uma alergia.  Fica claro o quanto o espaço, seja ele qual for, vai funcionar como uma extensão do ser, e esse vai responder a todos os seus estímulos. De forma ampla, podemos pensar na qualidade do espaço desde a cidade em vivemos até o material do bercinho de uma UTI infantil.

Tudo é LUGAR!  E todo lugar atua sobre todos.

Sempre é possível articular estratégias que tragam o natural para o ambiente construído, não importa o tamanho, o porte, a tipologia do edifício e nem mesmo o padrão da obra. Um tipo de cidade ou arquitetura que busca inspirações e respostas no mundo natural e busca trazê-los ao ambiente construído, de forma a  otimizar a performance humana em seus mais diversos aspectos. E o mesmo podemos dizer do edifício, que acaba tendo seus custos mensais e também de manutenção minimizados.

O mundo se apresenta muito mais complexo em suas relações e a capacidade humana em absorvê-las se faz cada vez maior. As formas de interação mudaram, somos capazes de ver, ouvir, falar, provar, sentir e relacionar tudo isso, de imediato, ao mesmo tempo, são tempos multissensoriais! Não podemos mais entender a arquitetura simplesmente como projeto, assim como projetos corporativos e fabris como “lugar de produção”, hotel como mero “descanso” ou hospitais como “máquinas de tratamentos”, as atividades fim às quais se destinavam a arquitetura já não supre suas demandas! Precisamos de mais e cada vez mais.

Feche seus olhos e imagine estar deitado em um lugar bem iluminado, bem ventilado, onde é possível ver borboletas, ouvir pássaros, escutar o vento soprando, ver o movimento das árvores … ainda que que você esteja atras de um vidro em uma UTI, é certo que seu coração irá se encher de esperança! Seguramente essa agradável sensação de bem estar e felicidade lhe foi proporcionada por nossa essência, por essa certeza que nos habita, de que somos parte da natureza.

Estando bem nutridos de verde, luz e ar naturais, temos mais para dar o nosso melhor, enquanto ambientes mal iluminados podem trazer prejuízo no desempenho das pessoas, sejam elas clientes, colaboradores ou pacientes, fazendo com que nosso organismo não responda a estímulos de medicinas diversas na melhoria de um quadro doentio.

As métricas econômicas, bem como o ROI(retorno sob investimento) de obras hospitalares já caiu no gosto de seus gestores e também por isso a crescente procura por projetos hospitalares mais “humanizados” e cada vez mais “biofílicos” (que adotam a biofilia* em sua concepção projetual) . Um exemplo nacional e recente é o novo centro de ensino e pesquisa Albert Einstein, em São Paulo, que contempla uma verdadeira floresta em seu interior. É fato que, os hospitais que possuem uma arquitetura mais sistêmica, alcançam patamares diferenciados em seus usuários, gerando alta taxa de fidelidade, como o Royal Children´s Hospital, em Melborne. Hospital Infantil, projetado por Billard Leece e Bates Smart, que se converteu em uma referencia internacional na prestação de serviços de saúde para o público infantil e hoje goza de números e métricas invejáveis, no que tange ao tempo e eficácia, da recuperação de seus mini pacientes. Outro exemplar premiadíssimo é em Singapura, chamado Khoo Teck Puat, situado em Yishun, o hospital atende a um conceito sustentável e envolto por jardins, que fazem uso terapêutico dos mesmos, fazendo com que sejam vistos de vários ângulos do hospital.

Em resumo, é fato que a arquitetura tem um papel fundamental na criação de ambientes que respeitem o ciclo circadiano (o nosso relógio biológico) e a neurociência hoje comprova a importância e os benefícios gerados por esta relação com o mundo natural, existindo inclusive instituições que estudem e ensinem, exclusivamente, a “neuroarquitetura”, ou seja, a neurociência aplicada à arquitetura. Por exemplo, pisos de madeira, paredes de terra crua, portas e janelas que se abrem para o verde, são informações recebidas por nosso cérebro, que despertam paz e tranquilidade, aumentando a resposta do sistema imunológico. Ilustrando tudo isso, temos a revista americana Medical Construction & Design, de abril de 2021, que aborda o tema dizendo “a exposição a elementos naturais, seja diretamente da natureza, seja de suas interpretações, auxilia no processo de cura dos pacientes, pode reduzir o estresse e melhorar resultados, como o alívio da dor”, reduzindo consumo de medicamentos, reforçando que nossos sentidos se aguçam na presença de elementos naturais, estimulando gatilhos mentais que nos fazem reconhecer sensações de acolhimento, já que despertam e conectam tato, olfato, visão, audição e paladar, elevando-os de sentido a sentimento! 

E o que fica para nós arquitetos, é que arquitetura não é mais um fim em si mesma, mas um meio de trazer inovação e traduzi-la em espaço, cada vez mais. É parte de um negocio, faz parte da cidade, de pessoas … devem melhorar todas as percepções, ativar gatilhos, trazer memórias, melhorar frequência, aumentar o foco, desenvolver o raciocínio, criar bons sentimentos…enfim, esses espaços devem ser orgânicos, devem conversar com nosso DNA, despertar o que há de melhor em nós!

*Biofilia: Muito usada pela neurociência e fortemente pela neurociência aplicada à arquitetura, pode ser definida como “amor inato dos seres humanos pela natureza”, capaz de gerar estímulos que reduzem cortisol (stress), estabilizam batimentos cardíacos, acalmam a respiração, proporcionando forte sensação de bem-estar.

Luana Lousa

Bioarquiteta na ArquiteturaViva

@arquiteturaviva

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